Tuesday, July 20, 2010

"espalha-se por todo o lado uma manha Imensa", Celine


O Passos Coelho anda a tirar coelhos da cartola. Agora vem com a revisão da constituição, destruindo o que há nela de humano num mundo sem humanidade. Claro que dirão eles que não é assim nem assado. Eles querem o bem comum. O que está à mostra é o que sempre pensaram mas nunca se atreveram deitar cá para fora. Agora é o momento certo. Vamos lançar a isca a ver se pega. Na verdade põem a careca à mostra. Vamos falar em quê? Direita? Fascismo? Capitalismo selvagem? Ultra liberalismo? Imaginem só: até o CDS gaguejou perante a enormidade. Essa clique do PSD está mais à direita de tudo. Mas há muitas coisas que essa gente esconde porque como diz o Marcelo, o timing é que é tudo. Pode-se fazer mas não é o momento próprio. Diria que é uma questão de táctica a curto prazo. Para eles não há conteúdo mas forma. A ronha está entranhada nessas iluminarias, na verdade "Espalha-se por todo o lado uma manha imensa", (Celine, "Viagem ao Fim da Noite").

Thursday, May 20, 2010

eles mesmo dizem

eles mesmo dizem
que fazem o melhor possível
pelo povo que os elegeu
mas sabem lá eles o que é isso de povo?
talvez uma coisa obscura que anda além e ali
batendo à porta deste e daquele
a ver de trabalho
para dar de comer às estrelas.

será esse vento misterioso guardado
a sete chaves que um dia se levanta em temporal
e leva tudo a eito até os demónios do inferno?

há uma noite

há uma noite
que é a mais horrenda de todas
quando o mundo soçobra
às mãos da ganância
e nessa cavidade escura
os inocentes morrem de fome.

só então se vêm
essas almas levantadas
- raios de luz -
batendo nessas tristes figuras
negras de unhas de ferro afiadas
roubando o dinheiro
do seu pão sagrado.

lá vai a correr

lá vai a correr o cavalo branco
pela planície sem fim
e uma seta envenenada
aparece do nada
a mata-o.

o cavalo tropeça
na encruzilhada da terra
e as estrelas
são mil cavalos
disparados
no universo.

agora e sempre

agora e sempre
na hora da morte
amém.

esta é a vigésima quinta hora
já lá vão uns dias
contados a dobrar
sem a mísera substância
da verdade.

aí está ela enrodilhada
com mentiras que por se lhe parecerem
ainda acabam por serem
matéria falsa
com laivos de verniz brilhante.

Friday, April 2, 2010

Almas benditas

Almas benditas, hoje vagueais por aí,
duma forma ou outra, descalças, no limbo,
a beira da terra, virada para outras terras
de prados verdes,
e mansos rios, e climas bons.
Olhai, corações! No fundo das vossas almas.
Ventos de fogo chegam.
E vejam lá, almas minhas!
Se respondeis ao vento que clama,
à tempestade que se aproxima.
Vede se sois puras chamas ou tendes lama em vossas alvas vestes.
Não fujais! Não descanseis!
Olha bem para ti, alma minha!
Se correres os caminhos não faças fitas,
não nomeies o nome de Deus em vão.

se não nos importamos

Se não nos importamos
com a derrocada,
então por hora fiquemos
a ver o filme. Há-de
chegar o momento,
próprio, a esquivar-se,
como água, para
não chegar. Está
intranquilo, esse
momento, porque, se não
é, tudo é, e, no
mesmo momento, a
derrocada vale o
ouro da ilusão.